Problema afeta homens e mulheres, mas formas de tratamento são diferenciadas.
Carolina Lenoir
A advogada Christianne Teixeira Souza Lima, de 36 anos, sempre teve os cabelos encaracolados e cheios, mas a partir dos 20 os fios foram se tornando cada vez mais finos e ralos, até começarem a sumir em determinados pontos. O psicólogo Tarcísio Moreira de Barros, de 61, percebeu os sinais da perda dos cabelos aos 53 anos, bem mais tarde que Christianne, mas de forma mais intensa. Os dois foram diagnosticados com alopecia androgenética, conhecida como calvície, que acomete de 50% a 70% dos homens e de 5% a 20% das mulheres.
A calvície é desencadeada por fatores hereditários e hormonais, especialmente os hormônios andrógenos testosterona e dehidrotestosterona (DHT). Uma enzima localizada na região da raiz do pêlo é responsável pela transformação da testosterona em DHT, que age nos receptores específicos dos folículos pilosos, a partir dos quais os pêlos são gerados. Essa ação faz com que os cabelos, gradativamente, fiquem menores e mais finos, demorem mais a nascer, até desaparecerem.
A dermatologista Rachel Menezes explica que perdemos naturalmente, em média, 100 fios por dia. A queda aumentada, porém, não significa sempre um sinal de calvície. “Pode ser uma queda transitória, que chamamos de eflúvio telógeno, causada por anemia, doenças da tireóide, uso de medicamentos, estresse emocional ou físico, como pós-cirurgias. Existe também a alopecia areata, chamada de ‘pelada’, que é a queda em placas, em áreas bem circunscritas, inclusive em barbas e sobrancelhas, causada por fatores emocionais.”
De acordo com o dermatologista Ivan Curtiss Silviano Brandão, na queda transitória, quase sempre basta apenas tratar a causa. “Por isso é importante a avaliação de um especialista, para diferenciar os casos. Um dos indicativos de que se trata de alopecia androgenética é quando os fios estão raleando e desaparecendo, sem que você veja para onde eles estão indo, como em travesseiros e ralo do chuveiro.”
Nos casos em que a calvície é confirmada, as opções de tratamento são a finasterida, substância administrada em comprimidos; minoxidil e 17-alpha-estradiol, de uso tópico; ou transplante capilar. “A finasterida bloqueia a produção de DHT em 60%. Os resultados começam a aparecer a partir de três meses a um ano e são melhores em quem está começando a ter sinais de calvície”, explica Ivan.
Apesar de a administração de um comprimido diário de finasterida ter resultados, em média, melhores que as substâncias de uso tópico, o medicamento oral é contra-indicado para mulheres em idade fértil, por causar problemas ao feto, e pode alterar a libido. “Porém, a taxa de pacientes que reclamam desse efeito colateral é de menos de 3%. Além disso, é reversível com a suspensão do tratamento, inclusive para investigar se a causa é realmente o remédio”, afirma o dermatologista. “A dosagem, de 1mg, também é insuficiente para causar impotência, como muitos homens receiam”, completa Rachel.
As causas e, conseqüentemente, o tratamento da calvície em mulheres são mais complexos que os dos homens. “Os casos femininos ainda são nebulosos porque, nelas, a alopecia androgenética não é causada apenas pelo excesso de testosterona, mas por outros fatores ainda não totalmente esclarecidos”, explica Ivan. De acordo com Rachel, se alterações hormonais são identificadas nas pacientes, são prescritos medicamentos antiandrogênicos. “Um deles é a flutamida, mas essa substância é muito tóxica para o fígado e, por isso, o seu uso é apenas para casos selecionados junto com o ginecologista e o endocrinologista”, afirma a dermatologista, lembrando que existem outros antiandrogênicos mais indicados.
Uso combinado com anticoncepcional
Ao perceber que seus cabelos estavam mais ralos e caindo, a advogada Christianne Teixeira Souza Lima procurou um profissional e descobriu que tinha alopecia androgenética. Durante seis meses, tomou finasterida e, já no quarto mês, algumas penugens começaram a surgir. “Normalmente os resultados em mulheres não são tão bons, mas tive sorte.” O medicamento só foi suspenso porque estava afetando a libido (a dosagem era maior, de 2,5mg). Atualmente, ela combina o uso de minoxidil e 17-alpha-estradiol com uma pílula anticoncepcional à base de drospirenona.
“Faço controle de seis em seis meses. O único inconveniente é que não pode parar o tratamento nunca, mas eu sou muito disciplinada. Fora isso, os produtos não têm cheiro nenhum e não pesam muito no bolso.” Com o sucesso do tratamento, a vaidade de Christianne voltou com força. “Adotei os cabelos mais curtos e em tom mais claro, para parecer que tenho mais.”
O psicólogo Tarcísio Moreira de Barros diz ter ficado abalado com a perda dos cabelos, percebida principalmente nos últimos oito anos. “Procurei logo um tratamento. Durante quatro anos, usei minoxidil e tomei finasterida. O cabelo não caía, mas também não nascia. Minha opção era o transplante capilar, mas estava inseguro, porque tinha medo de ficar igual a cabelo de boneca.”
Tarcísio procurou a clínica do cirurgião dermatológico João Rogério Regis, que explicou sobre a técnica do transplante de unidades foliculares total, em que são transplantadas unidades de um a quatro fios, no máximo – para evitar o efeito artificial causado por tufos com muitos fios. Segundo João Rogério, o transplante é indicado para pacientes que tiveram perda de cabelo considerável e não é possível recuperar com medicamento. “Na cirurgia, removemos uma fatia de couro cabeludo, com até 6 mil fios, da área doadora (da nuca e acima das orelhas, que não têm DHT). Fazemos uma sutura chamada tricofítica, que permite nascer cabelo na cicatriz e camuflá-la.”
A fatia é separada em pedaços menores, as unidades. Uma sessão dura de seis a oito horas e custa até R$ 8mil. “Depois, são formadas as crostas de cicatrização, que seguram o cabelo por 15 dias, até que eles caem e o bulbo (raiz) fica. Em três meses os cabelos começam a nascer e crescem um centímetro por mês, para o resto da vida.” O resultado final aparece entre seis meses e um ano. Tarcísio, que ainda não tem o resultado completo, garante já estar satisfeito. “As pessoas que não me vêem há muito tempo falam que não mudei nada, nem perdi cabelo. Mal sabem elas”, brinca.
ESTADO DE MINAS – MG 27/07/2008