AYCHA NUNES
A história é quase sempre a mesma: basta surgir a notícia de uma nova doença atacando lá no continente asiático e a pessoa tem a certeza de que será o primeiro sul-americano a contraí-la, na verdade, é bem provável que ela já esteja sentindo alguns sintomas estranhos há alguns dias. O cenário pareceu familiar? Porque é muito provável que você conheça alguém assim. Exageros à parte, a história reflete as características de quem sofre de um distúrbio psicológico chamado hipocondria. Estima-se que 8% dos brasileiros sejam hipocondríacos, pessoas que se preocupam excessivamente com a saúde e têm certeza que sofrem de alguma doença grave, apesar dos exames médicos mostrarem o contrário.
Hipocondria é um problema tão antigo que desde a época de Hipócrates, o pai da medicina, já havia relatos sobre o mal. A origem de seu nome está associada a queixas de dor na região do hipocôndrio, palavra grega que se refere à uma área abdominal abaixo das costelas. Ela pode acontecer em qualquer idade e atinge tanto homens quanto mulheres. Existem graus leves ou simples traços de hipocondria, nem todos os hipocondríacos peregrinam por consultórios médicos, alguns certos de que possuem determinada doença optam pela auto-medicação. Geralmente essas pessoas mantêm verdadeiras farmácias em suas casas e se separar delas durante uma viagem é simplesmente impensável. Não há nenhum modo conhecido de prevenção.
Embora o nome tenha sido banalizado, a hipocondria ainda é pouco conhecida e são poucos os que admitem sofrer com o problema. ‘Eu já fui hipocondríaco. Às vezes tenho uma recaída, mas já não sofro como antes’, afirma Sebastião de Melo Nunes. Mesmo não se considerando hipocondríaco, o contador confessa que esta semana confundiu um resfriado com uma pneumonia. ‘Eu peguei um resfriado esta semana e acabei me preocupando demais. Eu tinha certeza que estava morrendo por causa de uma pneumonia’, conta. A situação só foi contornada depois que Sebastião recebeu os resultados dos exames que descartavam a possibilidade de qualquer doença séria como pneumonia.
‘Depois que soube que era só um resfriado até os sintomas que estava sentindo sumiram. Sai do consultório outra pessoa’, diz.
Confundir um resfriado com uma pneumonia é apenas mais um capítulo na vida deste homem que há 15 anos não passa um dia sem tomar remédios. ‘Tenho vários remédios em casa, alguns foram prescritos por médicos, outros comprei por indicação de amigos e muitos são preventivos. Tomo pelo menos uns nove comprimidos por dia’, contabiliza Sebastião. Apesar da quantidade de remédios assustar, o contador afirma que o cenário já foi muito pior.
‘Eu já entrei no Incor (Instituto do Coração do Pará) com a mão sobre o peito gritando que estava infartando’, conta. ‘Me colocaram em uma maca e me levaram para o médico. Ele me olhou, disse que eu não tava com a aparência de quem estava infartando, mas mesmo assim me examinou e me mandou fazer alguns exames. Quando o resultado saiu ele me perguntou: ‘Quem te disse que você estava infartando?’, eu respondi que tinha certeza que tinha sofrido um infarto e não podia acreditar no contrário’, relata.
A situação se agravou ainda mais quando o cardiologista pediu para conversar com a irmã de Sebastião. ‘Naquela altura eu já tinha mobilizado a família inteira. Minha irmã estava no consultório comigo e quando o médico pediu para conversar a sós com ela eu tive a certeza de que estava morrendo e estavam escondendo isso de mim’, conta, agora entre risos.
Foi preciso muita paciência e carinho da família para que o corretor admitisse que estava com um problema emocional. Ele conta que foi graças às conversas que teve com seus irmãos, esposa, filhos e com um psicólogo que conseguiu atenuar a doença. Hoje, ciente de que se livrou de um grande problema, Sebastião lembra com bom humor da época em sua doença era motivo de brincadeiras. ‘Uma vez eu estava com uma dor tremenda e meu filho me deu um remédio dizendo que era muito bom eu tomei e fiquei bom, mas logo depois ele me disse que era apenas um placebo (uma substância sem propriedades medicinais, como uma pílula de açúcar)’, lembra.
DIAGNÓSTICO
Apesar de ser uma doença de caráter psicológico, a hipocondria tornou-se tão comum que a maioria dos clínicos gerais estão familiarizados com este mal. Geralmente são eles que suspeitam da doença, mas o diagnóstico deve ser confirmado pelo psiquiatra ou psicólogo, que se baseia nas queixas clínicas da pessoa, em sua história médica, no exame físico feito pelo médico e em exames complementares. Foi o que aconteceu com Sebastião Nunes.
Seu médico particular foi um dos primeiros a suspeitar que as constantes queixas feitas por Sebastião poderiam ser sinais de hipocondria. Como o médico é também cunhado do paciente, as consultas não se restringiam ao consultório e o contador costumava aproveitar cada encontro para uma rápida consulta com Sebastião. ‘Meu cunhado teve muita paciência comigo. Ele sempre conversava comigo, procurava me explicar sobre as doenças e sempre me acalmava quando estava aflito. Sua ajuda foi fundamental para que eu vencesse a hipocondria’, conclui.
O tratamento da hipocondria é feito com terapia, medicamentos ou ambos. Atualmente, a terapia cognitiva comportamental tem se mostrado eficaz em ajudar as pessoas com esse disturbio. Os terapeutas ensinam aos pacientes a focalizar menos em seus sintomas e falar como a tensão, a ansiedade e a depressão podem aumentá-los. Durante a terapia é mostrado ao paciente que as ações que normalmente tomam para aliviar a ansiedade (coçar-se, informar-se demasiado sobre doenças, ficar peregrinando de médico em médico, etc.), podem tornar as coisas piores. Os terapeutas também ensinam a pessoa a se distrair e a desenvolver técnicas de relaxamento. ‘Eu aprendi a relaxar e a procurar fazer outras atividades para pensar menos em doenças. Como toco teclado, passei a dedicar mais tempo a esse hobby, como forma de não pensar em algum sintoma. A mudança na rotina foi bastante reconfortante’, ensina.
‘Auto-consultas’ pela internet são perigosas, afirmam especialistas
Por se preocupar ao extremo com sua saúde, o hipocondríaco está sempre a par da chegada de um novo medicamento no mercado ou de uma nova doença. Para isso, além dos jornais e revistas especializadas eles contam com um poderoso aliado: a internet. Além de fonte de informações, a internet tem funcionado como um consultório digital. Certos de que estão doentes, os hipocondríacos, vasculham sites em busca de doenças que expliquem seus sintomas e mais ainda, eles procuram o tratamento para seus males. O que desencadeia um perigoso ciclo de auto-diagnóstico e consequente auto-medicação.
Essa geração de hipocondrícos que se alimentam de informações médicas – nem sempre confiáveis – está sendo chamada de cybercondríacos e o número de integrantes desse grupo não para de crescer. Um estudo feito pela empresa Harris Interactive em 2007, nos Estados Unidos, constatou que cerca de 160 milhões de internautas já usaram a web para pesquisar sobre saúde – um número que, segundo os pesquisadores, cresceu em 37% nos últimos anos.
Ano passado, a empresa de tecnologia Microsoft, fez uma pesquisa similar a realizada pela Harris Interactive, entretanto, os dados da Microsoft abrangem não só os Estados Unidos, mas o mundo todo. O objetivo da empresa ao encomendar a pesquisa era fazer melhorias em seu site de busca, mas apresentou resultados expressivos acerca de pesquisas médicas. O estudo revela que cerca de 2% de todas as buscas na Internet analisadas foram relacionadas a saúde.
Além da quantidade de acessos aos sites médicos, o estudo feito pela Microsoft provou que ao digitarmos um sintoma comum, como dor de cabeça, em um site de busca a probabilidade de sermos direcionados a uma página descrevendo condições graves de uma doença são maiores do que acessarmos um site descrevendo condições benignas – embora doenças graves sejam muito mais raras.
Faça o teste: digite ‘dor no peito’ num site de pesquisas e você verá que as dez primeiras páginas – de um universo de mais de um milhão – relacionam a dor no peito com infarto, angina, abcesso ou tumor pulmonar. Os resultados assustadores são muito mais comuns, embora as chances de que uma pessoa tenha um ataque cardíaco ou esteja sofrendo de uma condição neurodegenerativa fatal sejam muito menores do que as chances de que ela tenha uma simples indigestão ou tensão muscular, por exemplo.
Conheça alguns sintomas de um hipocondríaco
DOR NO PEITO
O que mais temem:
estar num processo de infarto
Causas mais prováveis para o sintoma, segundo os especialistas:
em cerca de 80% dos casos, a dor no peito não tem relação com problemas cardíacos, mas, sim, com um conjunto heterogêneo de fatores: de refluxo gástrico a ansiedade e dores musculares. A dor acompanhada de azia costuma ser sinal de refluxo. Já a sensação de pontadas em geral tem origem muscular
Quando se preocupar:
a dor típica de um infarto é a de um aperto no peito.
Ela costuma partir da região do coração e migrar para os braços, a mandíbula e as costas. Uma dor dessa natureza, que persista por mais de cinco minutos, é motivo suficiente para procurar o pronto-socorro
Sugestão dos especialistas: como medida preventiva, sedentários, fumantes e hipertensos com mais de 45 anos devem estar sob acompanhamento médico regular
SEDE CRÔNICA
O que mais temem:
sofrer de diabetes tipo 2
Causas mais prováveis para o sintoma, segundo os especialistas:
a prática diária de exercícios físicos e a ingestão de alguns dos medicamentos mais prescritos nos consultórios médicos, como diuréticos e antidepressivos, são dois hábitos que estimulam a sede. Outra informação aos exagerados de plantão: essa é uma sensação comum em ambientes quentes e com baixa umidade no ar.
Quando se preocupar:
O diabetes tipo 2 provoca, além de sede crônica, um conjunto típico de sintomas: aumento de apetite, perda de peso, fadiga e, sobretudo, uma permanente vontade de urinar. Se a sede vier associada a um deles, recomenda-se procurar o médico. Ele deve indicar um teste simples – de urina ou de sangue – para esclarecer a questão.
Sugestão dos especialistas: aos atletas, beber até 3 litros de água por dia. Às outras pessoas, 2 litros diários é uma boa dose. Por via das dúvidas, o exame de diabetes tipo 2 deve ser feito, periodicamente, depois dos 50 anos e nos casos de obesidadeDA OCASIONAL
DE MEMÓRIA
O que mais temem:
Ser vítima do mal de Alzheimer
Causas mais prováveis para o sintoma, segundo os especialistas:
Ele tem origens variadas – de estresse e depressão a insônia e consumo regular de bebidas alcoólicas. Alguns remédios (ansiolíticos e antidepressivos) também podem levar a lapsos de memória. Um dado para os mais aflitos: em apenas 5% das vezes o Alzheimer aparece em pessoas com menos de 65 anos
Quando se preocupar:
Se a perda de memória começa a comprometer de forma decisiva o dia-a-dia do paciente. Nesse caso, pode, sim, tratar-se de Alzheimer ou, ainda, de outro distúrbio neurológico. Cabe ao médico investigar para dar a palavra final.
Sugestão dos especialistas:
Dormir pelo menos sete horas por dia – está provado que surte bom efeito à memóriaDIFICULDADE DE RESPIRAR
O que mais temem:
Sofrer de doença cardiovascular ou de origem pulmonar
Causas mais prováveis para o sintoma, segundo os especialistas:
Falta de ar é um sinal clássico de ansiedade – nesse caso, é descrita na literatura médica como ‘dispnéia suspirosa’
Quando se preocupar:
Apenas quando a falta de ar piorar com um pequeno esforço físico, apresentar-se com outro sintoma, como a arritmia cardíaca – e intensificar-se depois de 24 horas
Sugestão dos especialistas: nesse caso, procure um médico, que investigará o problema por meio de um raio X do tórax e de um eletrocardiograma.OR DE CABEÇA CRÔNICA
O que mais temem:
Ter um tumor na cabeça ou sofrer de meningite
Causas mais prováveis para o sintoma, segundo os especialistas:
Se a queixa for apenas de uma dor de cabeça que não passa, jamais levantará no médico a suspeita sobre uma dessas doenças. As duas razões mais comuns para o sintoma são sinusite e enxaqueca.
Quando se preocupar:
A hipótese de um tumor começa a ser levada a sério se, além da dor de cabeça, o paciente apresenta outros sintomas, como fraqueza muscular, perda de sensibilidade em regiões do corpo e distúrbios de visão, fala e audição. Suspeita-se de meningite, por sua vez, apenas quando há febre alta.
Sugestão dos especialistas:
Procurar o médico caso a dor cresça de intensidade e persista mais de uma semana. Para tirar a questão a limpo, ele poderá prescrever uma tomografia do cérebro e uma ressonância magnética.CONSTANTE
O que mais temem:
Ter câncer de pulmão ou padecer de tuberculose
Causas mais prováveis para o sintoma, segundo os especialistas:
Em geral, trata-se de resquício de uma gripe ou resfriado. Sinusite – aquela inflamação dos seios da face deflagrada pela gripe, e que dura semanas – é outra razão comum para o sintoma.
Quando se preocupar:
As doenças das quais se teme sofrer vêm sempre acrescidas de outros sintomas. Nos casos do câncer de pulmão, a tosse (seca e com sangue) é acompanhada de falta de ar. A tuberculose, por sua vez, provoca, além da tosse (com sangue), febre, suor excessivo e emagrecimento.
Sugestão dos especialistas:
Uma tosse que persista mais de um mês pede a palavra de um especialista. Na maioria das vezes, trata-se de uma inflamação – e por essa razão é tratada com antibióticos.
O LIBERAL – PA 31/03/2009