Você tem fome de quê?

Agosto 9th, 2010 em Dicas de Saúde e Beleza

Sentir aquela vontade louca de comer uma guloseima pode ser um sinal da síndrome da fome oculta. Para não sofrer com esse desequilíbrio nutricional, saiba quais alimentos não podem faltar na sua dieta.

Imagine uma bela feijoada transbordando no prato. Ou um jantar no rodízio, pegando uma picanha aqui, uma alcatra ali, um pouquinho de arroz, farofa e, ao passar o medalhão de frango, mandar ver. Além de serem uma delícia para muitos, essas refeições, ao longo dos dias, garantem que a pessoa não terá nenhum problema com o suprimento protéico-calórico. Mas, certamente, esse cardápio vai, aos poucos, formar um quadro deficiente de nutrientes como vitaminas e minerais.

“Trata-se de componentes dos alimentos que não são o combustível energético do nosso metabolismo, mas que são fundamentais para o funcionamento perfeito de uma série de tarefas que o corpo precisa cumprir, inclusive para a absorção integral dos elementos energéticos, como carboidratos e lipídios”, ressalta a professora da Clínica Escola de Nutrição da Universidade Metodista de São Paulo, Patrícia Jaime Salim Diz.

Ninguém vai perceber. E mesmo os médicos terão dificuldades em fazer um diagnóstico preciso no início. O fato é que a falta de nutrientes pode acarretar problemas que vão desde a queda de cabelos até deficiências no sistema imunológico. São casos em que a barriga cheia esconde uma fome que o corpo sente sem demonstrar claramente: a síndrome da fome oculta.

Vontade louca de comer

É preciso fazer uma distinção, nem sempre fácil, entre a síndrome da fome oculta e outros problemas com efeitos parecidos. A desnutrição, por exemplo, representa uma questão de saúde pública grave no mundo. A quantidade mínima de calorias e proteínas necessárias para consumo diário não é atendida. Relacionada à pobreza, a desnutrição resulta num déficit de nutrientes pela falta de alimentos ingeridos. Ou seja, a origem do problema é a quantidade de alimentos e a restrição ao acesso adequado de recursos, inclusive os alimentares.

Já a anorexia é outro problema que pode acarretar baixo metabolismo de nutrientes, mas também se distingue da síndrome da fome oculta por ter sua origem em disfunções de ordem psíquica.

O que define então a fome oculta? “Nesse caso, a pessoa é aparentemente normal. Pois não se trata de carência de energia e, sim, de vitaminas e sais minerais. Quando a pessoa deixa de comer um grupo de alimentos, como verduras, acaba tendo carência de um pacote de micronutrientes”, define a professora de Nutrologia da Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão Preto, Selma Freire da Cunha.

Cuidado com a alimentação vazia

É claro que não se trata somente de maus hábitos alimentares. As crenças, os procedimentos culturais, as características regionais da culinária e a carência econômica podem definir esses hábitos.

Um caso é o de pessoas de renda baixa, que consomem alimentos mais baratos, à base de amido, como macarrão, junto a outras comidas gordurosas e muita gordura saturada. Não haveria, assim, necessariamente, falta de suprimento energético. Porém, tal padrão de alimentação não fornece a variedade de nutrientes necessários para o bom funcionamento do organismo ao longo do tempo.

Mas uma das principais formas de desenvolver a síndrome da fome oculta é a tão conhecida expressão que toda criança já ouviu dos adultos: “comer porcaria”. Freqüentar fast-foods, evitar frutas e saladas, empanturrar- se de salgadinhos e refrigerantes, fazer do macarrão instantâneo sua refeição cotidiana, matricular seu estômago na “Fraternidade dos Doces” e todas essas coisas que muita gente sabe que não faz bem e, mesmo assim, continua fazendo, é o jeito mais fácil e rápido de adquirir essa síndrome e, depois, quem sabe, ficar até doente. É isso o que você quer?

Se você prefere recusar essa furada, com as conseqüências que acarretam (veja quadro O corpo padece), então é melhor mudar de rumo e pensar melhor no seu cardápio.

O CORPO PADECE
Não é à toa que comer bem é o primeiro e melhor remédio para manter a saúde. Afinal, para cada nutriente que falta no organismo, veja quais e quantos problemas podem se originar.
FALTA DE VITAMINA A
• perda irreversível da córnea;
• cegueira;
• anemia;
• comprometimento do sistema de defesa do organismo;
• pioras nos quadros de infecções respiratórias e diarréia.
FALTA DE FERRO
• anemia ferropriva (carência de ferro);
• enfraquecimento do sistema imunológico;
• redução de capacidade física e mental;
• comprometimento do desenvolvimento intelectual em bebês e crianças;
• aumento do risco de mortalidade materna nas mulheres grávidas, além de maior risco de hemorragia e de infecção generalizada durante o parto;
• cansaço;
• falta de ar.
FALTA DE ZINCO
• deficiência de crescimento, predispondo o organismo
a desenvolver infecções em crianças desnutridas;
• diarréia;
• lesões na pele;
• perda de apetite;
• queda de cabelo;
• desenvolvimento sexual mais lento em meninos;
• lentidão de raciocínio;
• redução da capacidade gustativa e visual;
• diminuição na condução dos estímulos nervosos;
• lesões neurológicas;
• problemas para a cicatrização adequada;
• diminuição da resistência às infecções.
FALTA DE IODO
• comprometimento do feto a partir da 12ª semana
após a concepção, com possibilidade de afetar o
crescimento do cérebro e do sistema nervoso;
• fadiga, letargia, sonolência;
• intolerância ao frio;
• prisão de ventre;
• sudorese reduzida;
• parestesias;
• audição reduzida;
• lentidão mental;
• nervosismo e ansiedade.

Aposte nos pratos coloridos

Para manter uma dieta rica que atue no bom funcionamento do organismo, nada melhor do que ter uma alimentação bem colorida. Os nutrientes contidos nos alimentos é que definem suas cores. Portanto, quanto mais seus pratos se parecerem com quadros artísticos, maior será a garantia de que estará ingerindo uma paleta completa de elementos necessários para a boa saúde.

Mariana Del Bianco, responsável pela divisão de nutrição da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), aconselha a famosa pirâmide alimentar. Assim, a base deve ser de carboidrato integral. Na seqüência, deve-se consumir mais verduras, legumes e frutas; depois, proteínas; e, por último, os doces e alimentos hipercalóricos. “Muitas vezes, a pessoa que sofre de síndrome da fome oculta sem saber faz a pirâmide ao contrário”, relata Mariana.

Esconde-esconde no diagnóstico

Detectar a síndrome da fome oculta não é muito fácil. Embora o diagnóstico não seja recente, pois vem desde a década de 1960, o fato de normalmente não apresentar sintomas visíveis dificulta sua percepção.

Queda de cabelos, infecções vaginais, dores nas pernas, podem ser sintomas da síndrome. Mas também podem estar associados a outras causas. Nem os exames de sangue podem fornecer dados mais significativos a esse respeito. Segundo a nutróloga Selma Freire, num hemograma só é possível saber a deficiência de ferro, mas o exame não revela nada sobre os demais nutrientes.

Assim, os sintomas secundários podem, muitas vezes, indicar o desenvolvimento da fome oculta. “Uma pessoa que desenvolve pneumonia aguda de difícil tratamento, por exemplo, quando se analisa as causas do problema, descobre-se que tem essa deficiência de nutrientes”, exemplifica Selma.

A análise da alimentação é, de acordo com a nutróloga, o meio mais efetivo de se pré-diagnosticar o problema. “Existem vários métodos, mas a análise de três dias da alimentação durante uma semana e de um dia do fim de semana é eficiente para avaliar a quantidade de micronutrientes que o paciente consome”, resume.

O risco da obesidade desnutrida

Numa época de difusão global de hábitos, para o bem e para o mal, duas disfunções caminham com muitas coisas em comum. Tanto a obesidade quanto a síndrome da fome oculta estão relacionadas a modos inadequados de se alimentar. É curioso que uma síndrome relacionada à carência de nutrientes possa ter alguma relação direta com a obesidade. Mas, eventualmente, pode ter.

Considerando-se que as pessoas têm consumido cada vez mais produtos gordurosos e com alta taxa de açúcares, aliada à diminuição da ingestão de frutas, legumes e verduras, sem falar na falta de exercícios físicos, a obesidade passa a tornar-se uma doença crônica.

Acontece que alguns dos hábitos que contribuem para desenvolver obesidade também podem originar a síndrome da fome oculta. Comer rapidamente, mastigar mal, escolher uma combinação de alimentos hipercalórica e pobremente variada são todas elas atitudes que tanto ocasionam uma como a outra. “É quando surge a obesidade desnutrida”, relata Patrícia Jaime Salim.

Além disso, a falta de nutrientes pode ser mais um fator que dificulte o correto metabolismo e tenha, como um de seus efeitos, o reforço dos fatores que desenvolvem a obesidade. “A obesidade não causa síndrome da fome oculta. Nem mesmo a síndrome da fome oculta é um fator exclusivo para a obesidade. O que pode acontecer é que a falta dos nutrientes agrava um quadro comportamental psicológico e, às vezes, metabólico, que leva à obesidade”, detalha Mariana Del Bianco, da Abeso.

ONDE ESTÃO OS NUTRIENTES

Se eles são tão importantes para evitar complicações na saúde e garantir um metabolismo excelente, vamos saber como encontrar alguns minerais e vitaminas na alimentação.

• Fontes de Ferro:
carnes, ovos, folhas escuras, grão-de-bico, lentilhas, soja. Para aproveitar melhor o ferro, é bom combinar com alimentos ricos em vitamina C, como acerola, laranja e caju. Por outro lado, alimentos como leite devem ser evitados próximos às refeições para não atrapalhar a absorção do ferro.

• Fontes de vitamina a:
cenoura, brócolis, manga, pêssego, abacate etc.

• Fontes de iodo:
Sal iodado, peixes de mar salgado e algas. A iodação do sal passou a ser empregada em todo o território nacional em 1995. Hoje, o Ministério da Saúde indica que cerca de 95% do sal consumido no País seja iodado.

• Fontes de Zinco:
cereais, carnes e legumes em geral. Embora as frutas não sejam ricas em zinco, podem aumentar sua síntese.

• Fontes de Ácido Fólico:
verduras escuras, feijões e batatas. Hoje, o ácido fólico é freqüentemente acrescentado em alguns alimentos industrializados, como a farinha de trigo.

Estes e outros nutrientes também podem ser encontrados nos suplementos em cápsula. “Mas aconselho essa suplementação de vitaminas e sais minerais apenas para idosos, pois têm o metabolismo mais retardado e isso faz com que não absorvam com tanta eficiência os micronutrientes”, afirma Selma Freire, que também recomenda, eventualmente, para grávidas. Já para os adultos que não estão doentes, ela sugere simplesmente fazer uma alimentação balanceada. “Nada substitui a alimentação de qualidade. E pode ser obtida em qualquer self-service ou bandejão. Quando você come os micronutrientes pela alimentação, você já ingere o pacote de grupo de alimentos benéficos”, conclui.

FERRO, IODO E VITAMINA A SÃO OS NUTRIENTES QUE MAIS FALTAM NA ALIMENTAÇÃO REGULAR DAS PESSOAS, CONSIDERANDO-SE A POPULAÇÃO MUNDIAL.

Quantidade X qualidade

Dentre os nutrientes que mais faltam na alimentação regular das pessoas, considerando-se a população mundial, a carência de ferro, iodo e vitamina A são as mais recorrentes. O International Life Science Institute (ILSI) indica que 1 em cada 4 pessoas sofre a síndrome da fome oculta. Parte considerável está nos países mais pobres, embora seja um problema que se relaciona facilmente com hábitos alimentares de grupos sociais de renda alta também.

Geralmente, não existe sensação de fome diretamente causada por essa deficiência. O que o corpo pede, a partir de sua carência de nutrientes, não é necessariamente traduzido como vontade de comer mais. Os excessos alimentares têm muito mais a ver com descontroles psíquicos ou comportamentos. socioculturais.

Quando a pessoa não come certos alimentos, a tendência é a de que não apenas um, mas vários nutrientes estejam faltando. “Existem alguns micronutrientes que, quando faltam, normalmente ocasionam pacotes de carência. Por exemplo, selênio e zinco. Quem tem carência de um tem carência de outro”, alerta Selma.

Nada é proibido

E é bom lembrar que, na maioria das vezes, não seria necessário nenhum caminhão de alimentos saudáveis para que a pessoa tenha uma boa dieta. Para demonstrar, tome-se a necessidade diária de ácido fólico, para um adulto, que é de 240mg. Essa quantidade se consegue consumindo dois pratos grandes de verdura por dia, mais três porções de frutas ou legumes. Mas, quem não tem o hábito de comer salada, terá dificuldade de atingir a marca diária desse nutriente.

Além do quê, não é preciso esquecer para sempre as guloseimas e as substituir por completo a fim de não desenvolver a síndrome. “Nada deve ser proibido, nem mesmo os doces e gorduras, mas devem ser ingeridos dentro de um contexto saudável”, recomenda a nutricionista Mariana Del Bianco.

por Bruna Pellegrini e Gustavo Xavier

VIVA SAÚDE – MAIO – 2008

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