Pesquisas realizadas no Estado mostram que o episódio depressivo deflagra uma corrente de reações químicas danosas ao organismo.
Por fora, a depressão tem diferentes rostos. Mas, por dentro, ela é resultado de uma desordem química com repercussões por todo o organismo.
Nos últimos anos, com auxílio da medicina molecular, os cientistas descobriram que, quando o primeiro episódio depressivo ocorre, tem início um círculo vicioso de reações químicas que causa danos não só ao sistema nervoso central, mas abre o flanco para o aparecimento de doenças cardiovasculares. A partida é dada pela vivência de situações estressantes ou traumáticas, que estão na origem da depressão. Para enfrentar os momentos emocionais mais críticos, o corpo ativa uma rede de hormônios e substâncias que desequilibram a ação do eixo conhecido como hipotálamo-hipófise-adrenal, um dos elos entre o cérebro e os sistemas endócrino e imunológico. Desregulado, o eixo aumenta a secreção do cortisol, o hormônio do estresse que contribui para derrubar a imunidade frente a infecções. Daí, advêm as dores corporais e o mal-estar comuns aos indivíduos estressados.
Ao mesmo tempo, sucede no cérebro um ataque aos neurônios. Pesquisas do Laboratório de Psiquiatria Molecular do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) mostram que o estresse crônico e os traumas provocam a redução de uma substância chamada BDNF, uma espécie de adubo cerebral responsável por gerar e fortalecer os neurônios. Em indivíduos predispostos à depressão, essas alterações resultam no surgimento do primeiro episódio da doença.
O mais intrigante é que a depressão desencadeia as mesmas alterações causadas pelo estresse crônico e a vivência de traumas. Ou seja, o círculo vicioso de reações químicas danosas ao organismo volta a ocorrer (veja infográfico nesta página). E, a cada recaída, áreas importantes do cérebro, como o hipocampo, ligado à memória, e o córtex pré-frontal, associado à capacidade de planejamento e organização, diminuem de tamanho. Resultado: o indivíduo perde a capacidade de lidar com situações estressantes e se torna cronicamente deprimido.
- Sem tratamento, a depressão ganha autonomia e se torna tóxica ao sistema nervoso – explica Flávio Kapczinski, coordenador do Laboratório de Psiquiatria Molecular do HCPA.
A boa notícia é que a descoberta dessa intricada rede de hormônios e substâncias por trás da depressão está levando à novas frentes de tratamento da doença. Hoje, a terapia com antidepressivos assume o papel de proteger os neurônios do ataque e reduzir os níveis de cortisol no sangue. No futuro, afirma o professor e pesquisador de psiquiatria da Universidade de Londres Mario Juruena, os hormônios sintéticos e outras moléculas podem se tornar novos aliados nesse combate e devem ajudar principalmente as mulheres, sujeitas a maior oscilação hormonal em diferentes fases da vida.
- Estudos mostram que pacientes com depressão mais grave e resistente ao tratamento têm em comum uma concentração mais elevada, no sangue, do cortisol. Se formos capazes de estabilizar esses níveis, evitaremos as recaídas – diz Juruena.
Outra contribuição desses achados é a perspectiva de que seja possível, no futuro, detectar a depressão com exames de sangue e de imagem que auxiliem no diagnóstico clínico. O grupo de pesquisadores liderado por Kapczinski está animado com a perspectiva de produzir novos métodos com essa finalidade. Recentemente, o grupo recebeu, de institutos norte-americanos, uma verba de US$ 1 milhão para investigar se é possível usar a medição dos níveis de concentração da BDNF – substância que, quando em menor quantidade, está associada à depressão – como um marcador para diagnosticar as fases da doença. Caso essa perspectiva seja concretizada, indivíduos predispostos à depressão poderão contar com ajuda médica antes mesmo que ela mostre uma de suas faces.
| Manifestações da depressão |
| Para ser caracterizada como uma doença, a depressão precisa resultar em intenso sofrimento e gerar prejuízo social e pessoal. Um exame clínico deve ser feito para identificá-la. |
| DEPRESSÃO BIPOLAR |
| Em até metade dos casos, pacientes com depressão são do tipo bipolar: em algum momento da vida têm, ainda que de forma leve e muito breve, alterações de humor “para cima”, manifestando euforia, aumento de energia, gastos impulsivos e atitudes arriscadas |
| Sintomas: |
| - Tristeza prolongada ou choro sem motivo |
| - Mudanças no apetite e no sono (dorme demais ou pouco) |
| - Irritabilidade, ansiedade, raiva, preocupação, agitação |
| - Pessimismo, indiferença |
| - Perda de energia, letargia |
| - Sensação de culpa, desvalia |
| - Falta de concentração, indecisão |
| - Dificuldade em manter relações sociais |
| - Dores inexplicáveis |
| - Pensamentos de morte e de suicídio |
| DEPRESSÃO CLÁSSICA |
| É mais comum em homens adultos |
| Sintomas: |
| - Melancolia |
| - Ansiedade |
| - Apatia |
| - Perda do sono e de apetite |
| - Concentração e perseverança menores |
| - Libido diminuída |
| - Sente-se pior pela manhã |
| - Pensamentos de morte e suicídio |
| DEPRESSÃO ATÍPICA |
| Em geral, esse subtipo de depressão atinge mais as mulheres |
| Sintomas: |
| - Aumento do apetite (hiperfagia) e conseqüente aumento de peso |
| - Aumento do sono (hipersonia): aumento das horas de sono, aproximadamente de 25% do padrão de sono normal do indivíduo |
| - Sensibilidade excessiva a críticas |
| - Reclama de peso nas pernas |
| - Libido reduzida |
| DISTIMIA |
| Os sintomas da depressão, que é crônica, confundem-se com traços de personalidade |
| Sintomas: |
| - Mau humor crônico |
| - Pouca tolerância com pessoas e com o ambiente que o cerca |
| - Desânimo |
| - Pessimismo |
| - Incapacidade para se divertir |
| - Autocrítica demasiada, ao ponto de não conseguir desfrutar de nada |
| DEPRESSÃO SAZONAL |
| Cerca de 10% dos pacientes com depressão atípica manifestam esses sintomas no inverno ou no verão. Estudos mostram que a incidência de transtorno afetivo sazonal (TAS) em latitudes entre 45º e 50º ou mais altas é acima de 10% contra 1% da incidência em latitudes menores que 30º. Portanto, o TAS não ocorre em nosso país. Ainda não se sabe o mecanismo que leva as pessoas a se deprimir no verão ou no inverno, mas acredita-se que esteja relacionado à atuação da glândula pineal (localizada perto do centro do cérebro). Essa glândula secreta o hormônio melatonina, que reconfigura o ciclo do sono e vigília e outros ritmos diários. No verão, os sintomas são opostos aos do inverno |
| Sintomas: |
| - Nos meses quentes: tendência a dormir menos e a perder peso |
| - Nos meses frios: compulsão por comida e necessidade maior de dormir |
| DEPRESSÃO PSICÓTICA |
| Cerca de 15% dos pacientes com depressão grave apresentam comportamento psicótico, com delírios e alucinações |
| Sintomas: |
| - Crêem que cometeram pecados imperdoáveis |
| - Ouvem vozes que a acusam de delitos, crimes ou incentivam o suicídio |
| - Em casos graves, imaginam que vêem familiares já mortos e que são perseguidas |
| DEPRESSÃO PÓS-PARTO |
| Não deve ser confundida com a síndrome da tristeza pós-parto, espécie de baixo-astral limitado a primeira semana após o parto e que ocorre em cerca de 70% das mulheres. A depressão pós-parto atinge cerca de 10% das mulheres. É um evento que necessita do mesmo tratamento da depressão que ocorre fora do período pós-parto. Muitas vezes, é a primeira manifestação do transtorno de humor bipolar. |
| Sintomas: |
| - Fadiga |
| - Desânimo |
| - Distúrbios do sono e do apetite |
| - Choro incontrolável |
| - Desinteresse pelo bebê |
| - Medo de fazer mal ao bebê ou a si mesma |
| - Variações de humor |
| - Culpa excessiva |
| - Tristeza durante a maior parte do dia |
| - Agitação |
| - Auto-estima baixa |
| - Pouca capacidade de concentração |
| - Pensamentos de suicídio |
| conforme a idade: |
| Crianças |
| - Ficam mais briguentas |
| - Apresentam problemas de comportamento na escola |
| - Tornam-se desatentas |
| - Machucam-se com muita freqüência, sofrem acidentes estranhos |
| Adolescentes |
| - Mudam de conduta e abusam de álcool e drogas |
| - Têm brigas intensas com os pais, amigos e professores |
| - Tornam-se irritadiços |
| Idosos |
| - Ficam quietos demais, retraídos |
| - Apresentam lapsos de memória |
| Outras causas da depressão |
| - Distúrbios da tireóide |
| - Deficiência nutricional |
| - Vírus HIV |
| - Remédios, como os para pressão alta |
| Fontes: psiquiatras Flávio Shansis, Marcelo Fleck e Mario Juruena |
ZERO HORA – RS 29/03/2008











