Da Timidez à Fobia Social

Abril 26th, 2010 em Entrevistas- Fala Doutor

Algum grau de ansiedade em situações de exposição social é algo que faz parte da vida de todos nós. Para alguns o nervosismo surge para fazer uma entrevista de emprego ou para falar em público no trabalho ou na faculdade. Outros são tímidos para convidar alguém para um encontro ou ainda para conversar com estranhos e figuras de autoridade. De fato, sentir-se ansioso não é doença e até determinado ponto é adaptativo, melhorando o nosso desempenho e por vezes tendo a função de proteção. Porém, quando essa ansiedade é excessiva, causando um sofrimento importante ou fazendo com que a pessoa se esquive de diversas situações isso começa a se tornar um problema.

A timidez pode ser definida como um desconforto ou inibição em situações de interação social, geralmente associada a grande preocupação com as atitudes, reações e pensamentos dos outros. Seria um grau de ansiedade em situações sociais um pouco mais elevado, mas ainda saudável. E aqui é importante ressaltar: timidez não é doença.  Entretanto, para algumas pessoas a ansiedade frente às situações sociais torna-se tão intensa, incapacitante e paralisante, que prejudica as atividades do dia-a-dia e os relacionamentos interpessoais. Nesse caso pode ser feito o diagnóstico de Fobia Social. Assim, a timidez é uma ansiedade normal que diminui com a exposição e a experiência de vida, podendo até contribuir para um desempenho melhor nas situações sociais. Só falamos em Fobia Social, ou Transtorno de Ansiedade Social (seu nome oficial), quando a ansiedade é persistente, de alto grau e resulta em comprometimento no funcionamento social e psíquico. Fobia Social é muito mais que timidez.

A característica essencial da Fobia Social é a ansiedade frente a situações sociais em que a pessoa sente que está sendo observada por pessoas fora do seu ambiente familiar. Estas situações incluem falar em público – a situação precipitante mais comum – comer, beber e escrever em frente aos outros, encontrar pessoas que representam figuras de autoridade ou convidar alguém para um encontro. Essas situações são evitadas ao máximo, mas caso não seja possível, causam marcante ansiedade antecipatória, desconforto e mal-estar. Os sintomas mais comumente relatados incluem coração acelerado, rubor, sudorese, tremores nas mãos, bloqueio da fala, todos observáveis pelas outras pessoas, o que ajuda a aumentar a ansiedade.

É um dos transtornos psiquiátricos mais comuns, ocorrendo em cerca de 10% da população.  A idade média de início está entre 11 e 19 anos – um período da vida em que a personalidade e habilidades sociais ainda estão sendo desenvolvidas – e o início é seguido por cronicidade e prejuízo que afeta praticamente todas as áreas da vida. Pacientes com Fobia Social apresentam tendência a pior desempenho escolar, tem menor probabilidade de se casar e maior chance de continuar morando com os pais, nível de renda mais baixo e são mais susceptíveis a ficar desempregados. O diagnóstico e a intervenção precoce podem prevenir o desenvolvimento de outros problemas e melhorar a qualidade de vida das pessoas com Fobia Social.

Alaor Santos Filho

Psiquiatra, doutor em Saúde Mental pela FMRP-USP

CRM-MT 4054

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